Toda mãe, pai, familiar ou responsável já precisou insistir para uma criança comer algo, apelar para recompensas ou recorrer a técnicas que camuflam texturas e sabores desagradáveis ao paladar do pequeno.

Nesse cenário, o nutricionista é o profissional capacitado para ajudar as famílias a identificarem se o comportamento se trata de seletividade alimentar, associada ou não ao Transtorno do Espectro Autista (TEA), ou de algum distúrbio que possa comprometer a saúde e a alimentação da criança. A partir do diagnóstico, esse profissional oferece suporte e direciona as estratégias adequadas para cada situação.

Diante dessa realidade, a 2ª edição do Encontro Interinstitucional da Nutrição do Santa Marcelina Saúde promoveu uma roda de conversa sobre a dinâmica do atendimento infantil, além de palestras que abordaram a atuação da especialidade frente a essas e outras demandas das crianças e adolescentes.

Da Atenção Primária à UTI

A abertura do evento foi conduzida pelo Dr. Bruno Nunes, Diretor Clínico da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Santa Marcelina de Itaquera. Pouco conhecida pela população, a atuação dos nutricionistas nas UTIs é fundamental para acelerar a recuperação dos pacientes e combater a desnutrição grave.

Além do trabalho hospitalar, a nutrição desempenha um papel essencial de prevenção e acompanhamentos individualizados ou em grupos no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS). Ao somar todos esses serviços, os profissionais da Rede Santa Marcelina Saúde já realizaram mais de 32 mil atendimentos infantis apenas no primeiro semestre deste ano.

A gestora da APS, Vilma Venâncio, também reforçou que o propósito desses encontros é promover a troca de experiências entre os profissionais. Em sua fala, ela destacou o objetivo principal de desenvolver novos protocolos assistenciais e fortalecer a atuação da categoria.

Rotina e Previsibilidade

Há cerca de dez anos, Vitória Cristina Bruno Ramos decidiu se especializar em Nutrição aplicada ao TEA após o diagnóstico do seu irmão mais novo. Hoje, ela atua como supervisora do Serviço de Nutrição e Dietética do Hospital Santa Marcelina Cidade Tiradentes e conduziu a palestra “Construindo Estratégias para TEA e Seletividade Alimentar”.

“Pessoas com TEA tendem a ter déficit de macro e micronutrientes, o que gera uma desregulação na percepção do paladar. Por isso, a alteração no sabor faz com que recusem um grupo específico de alimentos. Assim, é preciso tratar a microbiota”, explicou a nutricionista.

Vitória destacou ainda que a falta de rotina e de previsibilidade prejudica o consumo de certos alimentos. Para explicar ela usou como exemplo uma bandeja de morangos, na qual alguns são doces enquanto outros podem ser azedos. “Por conta dessa variação, muitas crianças preferem produtos ultraprocessados e hiperpalatáveis, que são ricos em açúcar e gordura, já que um salgadinho industrializado terá exatamente o mesmo sabor em qualquer lugar.”

O diagnóstico como ponto de partida

Os Erros Inatos do Metabolismo, doenças genéticas raras que ocorrem quando uma enzima ou proteína não funciona adequadamente, foram abordados pela Claudinea Almeida, nutricionista do Ambulatório Médico de Especialidades (AME) de Itaquera.

O tratamento nutricional é um dos pilares mais importantes no controle dessas condições. “Temos que estar presentes desde o diagnóstico, que serve como ponto de partida e é viabilizado pela triagem ampliada do Teste do Pezinho, realizado nos primeiros dias de vida”, ressaltou, reforçando a importância do exame e do acompanhamento contínuo.

Por fim, a palestra “Transtornos Alimentares e Desenvolvimento Infantil” foi ministrada por Caroline Silva dos Santos, nutricionista da UPA Cidade Tiradentes e integrante da equipe interdisciplinar do PROATA Kids, da UNIFESP, voltada ao atendimento especializado de crianças e adolescentes.

A especialista alertou que doenças como anorexia, bulimia e o Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (TARE) muitas vezes são negligenciadas ou vistas como exclusivas de adultos. “Essas patologias podem comprometer a relação da criança com a comida, gerando prejuízo social, ansiedade, perda de peso e de nutrientes, além de vergonha e resistência a mudanças”, pontuou.

A investigação de todas as possibilidades ainda na infância é fundamental para guiar o tratamento adequado, uma vez que o diagnóstico correto viabiliza a elaboração de estratégias terapêuticas individualizadas, e alinhadas à realidade social e familiar de cada criança e adolescente.

A 2ª edição do Encontro Interinstitucional de Nutrição foi realizada no auditório São José da Faculdade Santa Marcelina, instituição à qual agradecemos pela cessão do espaço, assim como a parceria dos apoiadores Hélios Refeições e Nestlé.