Especialista do Hospital Santa Marcelina fala sobre a importância da doação e a segurança do procedimento
O Dia Mundial do Doador de Medula Óssea, celebrado em 19 de setembro, reforça a importância de um gesto que pode representar uma nova chance de vida para adultos e crianças que aguardam um transplante. Neste ano, o tema ganha ainda mais relevância no Brasil diante de avanços e iniciativas relacionadas ao transplante de células-tronco hematopoéticas (aquelas capazes de produzir todas as células do sangue) e ao fortalecimento do Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (REDOME), que reúne mais de 6 milhões de brasileiros dispostos a ajudar pacientes de todo o país e do mundo.
O Hospital Santa Marcelina é referência na Zona Leste de São Paulo em transplantes dessa natureza e realiza diferentes tipos de procedimentos: utilizando células-tronco do próprio paciente, de doadores familiares, de não familiares ou de pessoas parcialmente compatíveis – conforme a necessidade e a compatibilidade de cada caso. Criado em 1998, o serviço contempla desde o acolhimento do paciente, passando pelo tratamento e, posteriormente, por acompanhamento de equipe multidisciplinar.
Somente em 2026, até o momento, foram realizados 66 transplantes, sendo 23 em pacientes menores de 18 anos e 43 em adultos. Encontrar um doador compatível pode representar um dos momentos mais desafiadores para as pessoas que precisam de um transplante de medula óssea.
Embora o Brasil tenha um dos maiores registros de doadores voluntários do mundo, a compatibilidade depende das características genéticas do sistema HLA (conjunto de proteínas presentes na superfície das células do organismo que funciona como uma espécie de “identidade genética”), o que faz com que as chances de encontrar um doador variem de acordo com cada paciente.
Para a supervisora do Serviço de Transplante de Medula Óssea do Hospital Santa Marcelina (TMO), Drª Vivian Zanão, a experiência acumulada pela instituição está relacionada não apenas ao número de procedimentos, mas também ao acompanhamento integral do paciente. “Mais do que o número de transplantes, nossa experiência está relacionada à capacidade de acompanhar o paciente em todas as etapas: desde a indicação e escolha do doador, passando pelo condicionamento e transplante, até o acompanhamento e período pós-transplante. É um trabalho que envolve uma equipe multiprofissional altamente especializada”, explica.
Como funciona a doação
O primeiro passo para quem deseja ser doador é realizar o cadastro no Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (REDOME), que envolve a coleta de uma pequena amostra de sangue para identificar as características genéticas do sistema HLA (feita em um hemocentro ou hemonúcleo credenciado). Estar registrado, entretanto, não significa que a pessoa será necessariamente chamada para doar. O contato ocorre caso seja identificada uma possível compatibilidade com um paciente.
Quando a doação é realizada, existem duas principais formas de retirada. Uma delas é feita por meio do sangue periférico. Nesse caso, o doador recebe previamente um fator de crescimento, que estimula a passagem das células-tronco hematopoéticas da medula para a circulação. Depois, elas são coletadas por aférese, em um procedimento semelhante a uma doação de sangue, com duração de algumas horas.
A outra possibilidade é a coleta diretamente da medula óssea. O procedimento é realizado sob anestesia, por meio de punções nos ossos da bacia, em centro cirúrgico. “A doação de medula é considerada um procedimento seguro quando o doador é adequadamente selecionado e passa por avaliação clínica e laboratorial rigorosa”, afirma Drª. Vivian.
Compatibilidade: por que a diversidade do cadastro importa?
Dentro da família, entre irmãos que têm o mesmo pai e a mesma mãe, existe aproximadamente 25% de chance de encontrar um irmão geneticamente compatível. Quando não há um doador familiar, a busca é realizada no REDOME e, quando necessário, em registros internacionais.
A chance de encontrar um doador não é igual para todos os pacientes. Ela depende, entre outros fatores, da ancestralidade e da pluralidade genética das populações. Por isso, ampliar o número de voluntários e a diversidade do cadastro é fundamental para aumentar as possibilidades.
O REDOME reúne atualmente cerca de 6 milhões de doadores voluntários, e seus dados são cruzados com os de pacientes que necessitam de transplante. Ainda assim, os dados apresentados pelo serviço indicam que a busca resulta em um doador para aproximadamente 60% dos pacientes. “Por isso, manter um grande registro de doadores, com pessoas de diferentes origens genéticas, é fundamental para aumentar as possibilidades de encontrar um doador compatível’, destaca a médica.
O transplante começa antes do procedimento e continua depois da alta
O tratamento não se resume ao dia em que as células são infundidas. Antes do transplante, a equipe avalia a indicação, as condições clínicas do paciente e as características, além da disponibilidade do doador.
Na sequência, é realizado o chamado condicionamento, etapa que prepara o organismo para receber as células-tronco e consiste em quimioterapia e/ou radioterapia.
Após o transplante, o paciente passa por um período que exige acompanhamento próximo para monitorar a recuperação da medula, infecções, toxicidades dos medicamentos, alterações imunológicas e outras possíveis complicações. “E o acompanhamento não termina quando o paciente recebe alta. O seguimento após o transplante é fundamental e pode se estender por muitos anos”, acrescenta Drª Vivian.
No Santa Marcelina, esse cuidado envolve uma equipe multidisciplinar formada por médicos, enfermeiros especializados, nutricionistas, fisioterapeutas, psicólogos, assistentes sociais, odontologistas e outros profissionais, conforme a necessidade de cada paciente.
Para a supervisora do departamento de TMO, o transplante pode representar uma importante possibilidade de cura ou de controle prolongado para determinados pacientes. “Eu diria que o doador é alguém que, com uma missão especial, representa uma oportunidade de vida para outra pessoa”, finaliza.
SERVIÇO
Hospital Santa Marcelina – Serviço de Transplante de Medula Óssea
O Hospital Santa Marcelina realiza transplantes de medula óssea desde 1998 e atende pacientes com doenças hematológicas e onco-hematológicas, realizando diferentes modalidades de transplante e acompanhamento multiprofissional em todas as etapas do tratamento.