Histórias de vida transformadas pela profissão ou pela atuação dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) foram destaques do evento em homenagem à categoria. Em 2026, a Santa Marcelina Saúde comemora os 30 anos da Atenção Primária à Saúde (APS) em São Paulo, uma trajetória que teve início com a Estratégia Saúde da Família e apenas 27 equipes da rede. Atualmente, são 256 equipes atuando em 54 unidades. É uma história de crescimento, aprendizado, credibilidade e fortalecimento do impacto social no  território.

Desde o início dessa jornada, já era comum que os moradores conhecessem pelo nome o agente que atendia e acompanhava sua família. A diretora-adjunta da APS do Santa Marcelina Saúde, Vilma Venâncio, relembrou esse começo. “Esses primeiros agentes marcaram uma mudança visível nos territórios para o governo da época. Eles lutaram por melhorias nas escolas, por espaços de lazer para as crianças, por campos de futebol e praças. Eles já entendiam que saúde não é apenas a ausência de doença, mas sim a melhoria daquele local.”

A Irmã Rosane Ghedin, diretora-presidente do Santa Marcelina Saúde, prestigiou os profissionais e agradeceu pelo trabalho desempenhado ao longo dessas três décadas. “O trabalho do ACS é de suma importância. Não existe Saúde da Família sem a conexão que o agente faz entre a pessoa, a família, a criança e o cuidado. Não existe Saúde da Família sem esse vínculo construído no dia a dia, no ir e vir, entrando nas casas e identificando as necessidades de cada um. É assim que levamos a nossa missão adiante”, destacou Irmã Rosane.

Histórias que inspiram

O evento contou com uma roda de conversa em que algumas agentes compartilharam situações marcantes vividas no exercício da profissão.

Recomeço: foi por meio da agente comunitária que atendia sua família que Gleyce Reis Stabile vislumbrou uma nova oportunidade. Há dois meses, ela também passou a atuar como ACS na UBS Cosmopolita. O ingresso na profissão, após meses desempregada, deu a ela autonomia, confiança e um verdadeiro recomeço.

Papéis invertidos: após um quadro de dengue, Paula Cristina Cavalcante desenvolveu encefalite e precisou ser internada na UTI. Durante o período de tratamento, ela recebeu correntes de oração de seus colegas e o carinho das famílias que atendia como ACS. Já em recuperação domiciliar, a agente passou a ser quem recebia o apoio e a visita dos usuários cadastrados na UBS Castro Alves.

Insistência e sensibilidade: no Jardim Maia, uma das moradoras atendidas procurou a agente Ana Francisca da Silva ao descobrir a gestação, revelando a intenção de interrompê-la. Com olhar atento e escuta qualificada, Ana acompanhou a moradora diariamente para que aceitasse o pré-natal e conhecesse a possibilidade de entrega voluntária para adoção. A insistência respeitosa fez com que a mãe seguisse com a gravidez. Hoje, a pequena vive com a mãe e recebeu o nome da agente em sua homenagem.

Profissão que salva vidas: muitos agentes atuam no próprio bairro onde residem. Foi a chegada de uma nova família na torre vizinha que acendeu o alerta da ACS Ana Paula dos Santos sobre o risco de violência doméstica contra um adolescente. Após tentativas sem sucesso de cadastrar a família, Ana tentou o contato mais uma vez. Quem abriu a porta foi o próprio jovem. Ao notar hematomas aparentes no garoto, ela o orientou a procurar a UBS, o que permitiu o acionamento do Conselho Tutelar. O adolescente foi retirado do ciclo de violência e pôde reencontrar a mãe, que morava em outro estado e não tinha notícias do filho.

Mais que um cargo, uma missão: durante uma palestra assistida enquanto atuava como ACS na UBS Jardim Fanganielo, Sidneia percebeu que vivia um relacionamento abusivo, marcado por violência psicológica, patrimonial e moral. A partir daquela conscientização, e mesmo com cinco filhos, decidiu se divorciar para estudar e investir em sua carreira. Hoje, Cindy, como prefere ser chamada a partir dessa virada, é graduada em Serviço Social e pós-graduada em Direito das Mulheres.

Autocuidado para quem cuida

A proximidade constante com o território e com as famílias faz com que o agente presencie situações complexas de vulnerabilidade e violência, estabelecendo vínculos que vão muito além dos relatórios ou dos estudos de caso.

Pensando na saúde mental e no bem-estar desses profissionais, Liliane Rosa Oliveira Silva, assessora técnica em Serviço Social do Núcleo Técnico de Ensino e Pesquisa na APS Santa Marcelina Saúde, ministrou a palestra “A Comunidade que Cura”. A apresentação abordou temas como autocuidado, comunicação não-violenta, escuta ativa e empatia.

“É preciso se cuidar e se preservar dentro do processo de trabalho para manter a hospitalidade e a amorosidade no território. Para agir com calma e afeto, precisamos cultivar esses sentimentos internamente. O autocuidado é essencial”, explicou Liliane.

Como ferramenta de apoio nesse processo, foram destacadas as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), como meditação, alongamento, musicoterapia e técnicas de respiração diafragmática, que ajudam a aliviar o estresse e a promover a qualidade de vida.

A iniciativa reforça o compromisso do Santa Marcelina Saúde em cuidar de quem cuida e garantir condições adequadas de trabalho, o que reflete diretamente na qualidade do atendimento prestado à população.

Por Carolina Franca